Abril indígena

Povos indígenas no estado de Goiás: de terras, territórios, trânsitos e itinerâncias

Atualizada em 17/04/26 20:03.

Neste abril indígena, o Museu reforça a pluralidade indígena no Estado

Texto por Rosani Moreira Leitão,
Diretora do Museu Antropológico (UFG)


Goiânia, 17 de abril de 2026 - No mês dedicado aos povos indígenas, o Museu Antropológico da Universidade Federal de Goiás (MA/UFG) convida o público a refletir sobre a diversidade e a presença contínua dos povos indígenas no estado de Goiás. Muito além de números reduzidos ou visões estereotipadas, Goiás é território indígena marcado por histórias de resistência, mobilidade e reinvenção cultural.

Embora o estado conte com menos de mil indígenas vivendo em terras oficialmente demarcadas - pertencentes aos povos Avá-Canoeiro (em Minaçu), Iny Karajá (em Aruanã) e Tapuia do Carretão (em Rubiataba e Nova América) - os dados mais recentes do Censo apontam para uma realidade mais ampla: mais de 19 mil pessoas se autodeclaram indígenas em Goiás. A maioria vive fora das terras demarcadas, distribuída por cidades e diferentes municípios goianos.

Essa presença revela um aspecto fundamental da realidade indígena contemporânea: os povos indígenas não estão restritos às aldeias. Eles transitam entre territórios, cidades e instituições, em busca de melhores condições de vida, acesso à educação, saúde e trabalho, assim como qualquer outro cidadão brasileiro.

Em 2022, foi instituído o “Dia dos Povos Indígenas” proposto pela deputada Joênia Wapichana e, em abril de 2023, este dia foi comemorado pela primeira vez. A mudança de nome teve como objetivo romper com a visão folclórica e generalizadora do antigo “Dia do Índio”. Nesse mesmo contexto, a Fundação Nacional do Índio passa a se chamar Fundação Nacional dos Povos Indígenas.

Neste abril de 2026, o Museu Antropológico chama a atenção para a diversidade cultural indígena do Brasil, a partir das histórias de lutas e de resistência dos povos indígenas que vivem no estado de Goiás: Goiás é território indígena.


Tapuia do Carretão: identidade e resistência

Tapuia Registro 04
Professores/as da escola Tapuia e equipe da saúde bucal.
Aldeia Carretão. Foto: Eunice Pirkodi Tapuia, 2016.

 

Os Tapuia do Carretão não são os “típicos indígenas” idealizados por muitos que desconhecem a realidade indígena brasileira. Não são falantes de uma língua indígena específica. Falam uma variedade tapuia do português, ou o português tapuia, conforme estudos linguísticos realizados por Eunice Pirkodi Tapuia (2023). Se originaram de relações interétnicas entre vários povos Macro-Jê/Jê do Brasil Central (Xavante, Karajá, Xerente, Kayapó, entre outros) e das políticas que visavam liberar os seus territórios para a exploração colonial, que os reuniram, às vezes de forma forçada, em aldeamentos sob a administração de missionários na antiga província de Goyás.

Os Tapuia atuais são descendentes dos poucos que resistiram e permaneceram na região, após a inativação dos aldeamentos. Desde então, lutam por reconhecimento e pelo direito a permanecerem neste território, pela valorização dos seus saberes como conhecedores da agricultura familiar e da medicina tradicional e contra diversas formas de preconceitos e de discriminação que muitas vezes colocam em cheque a legitimidade de suas reivindicações como povo específico diferente da população regional.

 

Avá-Canoeiro: sobrevivência e retomada

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Tuia, Matxa e Nakwatxa – mulheres Avá-Canoeiro.
Foto: Alan Kublin, 1983. Acervo IGPA/PUC Goiás.
Créditos: OPIG/MA/UFG.

 

O povo Avá-Canoeiro de Goiás é constituído de apenas uma família formada por oito pessoas, sendo quatro adultos/as e quatro crianças, de 2 a 12 anos. As crianças são filhas de Niwathima Avá-Canoeiro, a mulher adulta mais jovem e de seu esposo Parazin Tapirapé. Os Avá-Canoeiro são falantes da língua Avá-Canoeiro, da família linguística Tupi-Guarani, do tronco Tupi. Mas, principalmente os mais jovens também falam o Tapirapé e o Português. Tradicionalmente habitantes da região Araguaia-Tocantins, eles foram vítimas de muitas perseguições e massacres, chegando a serem considerados extintos até o final da década de 1960. Estiveram por muito tempo em processos de fuga. Foram perseguidos pela política colonial da antiga província de Goyás e pelos agentes das frentes agrícolas do norte de Goiás e atual estado do Tocantins nas primeiras décadas do século XX.

Após sofrerem massacres, por anos se esconderam em matas e serras da região. São dois pequenos grupos. Um deles reside atualmente no estado de Goiás e, desde o início da década de 1980, habita a Terra indígena Avá-Canoeiro, no município de Minaçu (GO). Os integrantes do outro grupo, se autodenominam “Ãwa” e vivem na região do rio Araguaia, numa aldeia Iny Javaé, na Ilha do Bananal. Atualmente estão em um movimento de retomada de seu território, de onde foram deslocados de forma forçada, no início da década de 1970. Depois de um longo processo de perseguições, deslocamentos territoriais, tutelas institucionais, essas comunidades lutam por autonomia, conquista de direitos e ampliação de sua cidadania. A língua Avá-Canoeiro é considerada em alto risco de extinção devido ao pequeno número de falantes e dos casamentos com outros povos. Ambas as comunidades possuem suas próprias escolas e iniciam a construção de projetos educativos próprios.

 

Iny Karajá: cultura viva às margens da cidade

Verbete Iny-Karajá - Foto 02
Modo de fazer Kaw-Kaw. Fase: pintura. Artista: Ximanaki.
Foto-autoria: Telma Camargo. Acervo: Iphan.
Créditos: MA-UFG/IPHAN.

 

Os Iny Karajá do Estado de Goiás se dividem em duas comunidades e residem em Terras Indígenas, localizadas em áreas urbanas ou nas proximidades da cidade de Aruanã (GO). Juntamente com os Iny Javaé e Iny Xambioá formam o povo Iny, habitante do Vale do rio Araguaia e Ilha do Bananal em aldeias que se distribuem em todo o eixo do rio, nos estados de Goiás, Tocantins, Mato Grosso e Pará. Os Iny Karajá, como os demais povos Iny, são falantes do Inyribè classificado como pertencente à família linguística karajá do tronco macro-jê, que é falada na maioria das aldeias.

Embora façam parte desse grupo maior que conta com grandes aldeias com muita vitalidade cultural, os Iny Karajá de Goiás, como outros povos indígenas brasileiros que vivem em áreas urbanas ou próximas a elas, sofreram muitas perdas culturais e linguísticas, principalmente pelo surgimento e pressão da cidade de Aruanã, que implicou também em perdas de parte do território e da autonomia, que vêm sendo recuperados graças a um trabalho de retomada cultural, linguística e territorial desenvolvido pelas comunidades com apoio de instituições e pessoas aliadas aos projetos de educação entre outros.

 

Trânsitos e itinerâncias entre cidades, territórios e terras indígenas

No que se refere aos indígenas urbanos, a situação do estado de Goiás não é diferente da de outros estados brasileiros. Grupos familiares e pessoas pertencentes a diferentes povos e etnias, às vezes, classificados como itinerantes estão em todas as regiões do Brasil e em Goiás, também. Por diferentes motivações, como ocorre com outras famílias e cidadãos brasileiros que migram definitivamente ou temporariamente em busca de melhores condições de vida, tratamentos médicos, e melhores oportunidades de trabalho e de estudos. Das aproximadamente 300 pessoas que formam a comunidade Tapuia do Carretão, 100 vivem em diferentes cidades, situação semelhante ocorre com os Iny Karajá de Aruanã. Existem atualmente centenas de jovens indígenas matriculados em em escolas de educação básica e em diferentes cursos universitários em instituições de ensino superior de cidades goianas.

Na Universidade Federal de Goiás, os estudantes ingressam em cursos regulares por concorrência geral, ou por meio de cotas pelo programa UFGInclui, ou ainda pelo processo seletivo específico da licenciatura intercultural voltada para a formação de professores, que conta atualmente com aproximadamente 300 estudantes indígenas, de mais de 30 etnias diferentes e vindos/as de vários estados brasileiros, No caso específico do curso de Licenciatura em Educação Intercultural, um curso de formação de professores orientado pela pedagogia da alternância, os estudantes transitam entre Goiânia e seus território cumprindo, no período de cinco anos, em etapas de estudos que se alternam entre a UFG e as Terras Indígenas.

Assim, a compreensão da presença de povos indígenas em território goiano não deve ser simplificada e reduzida aos três povos com terras indígenas demarcadas neste estado. É um equívoco pensar ou afirmar que a população indígena de Goiás ou de qualquer outro estado do Brasil vive ou devia viver em aldeias.

Fonte: Direção

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